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Minas, Brasil e o mundo em debate
Jornalista agora pode ser qualquer um
18/06/2009

 

Foi decidido pelo nosso justo e reto Superior Tribunal Federal – STF que para exercer a profissão de jornalista não é mais obrigatório ter diploma. Falando em uma língua clara e nada culta, significa que você (um otário) que estudou durante quatro anos em uma universidade particular e pagou uma nota preta (cerca de 50 mil), ralou feito louco, quase endoidou de trabalhos (tanto na particular ou federal) para realizar o mísero sonho de ser jornalista, perdeu seu precioso tempo (e dinheiro), pois agora, qualquer Zé Mané pode exercer a profissão (se é que existe a profissão agora).

Quarenta anos depois de ter sido criado, o diploma de jornalista não é mais obrigatório. A decisão do Supremo libera as empresas de comunicação para contratar profissionais de outras áreas ou mesmo sem formação superior. De acordo com excelentíssimo ministro-relator do processo, o presidente do STF, Gilmar Mendes, aquele que concedeu habeas corpus ao Daniel Dantas e bateu boca com o ministro Joaquim Barbosa durante sessão plenária e etc., “a formação específica em cursos de jornalismos não é meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”. Olha que besteira! Se for assim, essa tal afirmação deveria valer para outras profissões também, como a advogado, dentista, cirurgião, por exemplo. Quem sabe também, para contador e economista, pois para isso, basta então saber aritmética. E como se não bastasse tal infeliz citação, ele ainda por cima, comparou o jornalista a um cozinheiro: “para ser bom, não precisa ter diploma”. Não é nada contra o cozinheiro, mas há coisas que não se comparam.

“Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado em uma faculdade de culinária, o que não legitima o estado a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nesta área”, defendeu o relator. Ou o mestre da baboseira. Mais infeliz impossível a meu ver.

Os ministros Eros Grau, Cezar Peluso, Cármen Lúcia, Ellen Gracie, Ricardo Lewandowski, Carlos Ayres Britto e Celso de Mello tiveram a mesmíssima postura. Foram oito votos contra um. O único a votar pela exigência do diploma foi o ministro Marco Aurélio Mello, que defendeu que qualquer profissão é passível de erro, mas que o exercício do jornalismo implica uma “salvaguarda”.  Para ele, “o jornalista deve ter uma formação básica que viabilize a atividade profissional que repercute na vida dos cidadãos em geral”. Sábias palavras.

É obvio que vou concordar que uma universidade não garante a qualidade do profissional. Culpa dos estudantes? Da universidade? Talvez seja principalmente culpa de quem deveria zelar e fiscalizar os cursos. As vagas nas universidades têm aumentado, junto com a oferta de novas universidades e centros universitários (que tratam a educação como mercadoria e visa somente o lucro) e tem jogado no mercado, milhares de profissionais despreparados. Nas universidades públicas há problemas de sucateamento, falta de investimentos, e muita coisa grave. Mas percebemos que o problema está em todas as áreas. E o que será feito?

Formei há dois anos, e tenho notado como está desprestigiada a profissão de jornalista no Brasil. Não há glamour, como pensam alguns, nem salários gordos, como ganham alguns, muitos poucos, digam-se de passagem. O que há é trabalho duro, falta de horário, enfrentamento de cara feia e grosserias, porta na cara e muito mais. Ninguém mais respeita o jornalista e nem o que escrevemos. E essa situação só vai piorar, de agora em diante.
Qualquer um que souber o mínimo da gramática ousará se incursionar pelos caminhos da escrita. Não sabem esses tais ministros que o jornalismo verdadeiro é muito mais que escrever um fato, mas é paixão. Uma paixão cortante e despretensiosa.

E como ficará a questão salarial, agora que qualquer um pode exercer a função. O piso já é baixo, e tende só a baixar mais, já que nem todas as empresas de comunicação se importam com a qualidade do conteúdo que publicam e sim com a diminuição da sua folha salarial.

O STF deixou claro que a decisão não acaba com o diploma, só com a exigência dele e, que os cursos de jornalismo não serão extintos, mas serão as empresas de comunicação é que vão definir os critérios para contratar os profissionais. Se quiserem, podem continuar a exigir o diploma de jornalismo. Rarará, parece até piada e de mau gosto. Quem vai exigir um diploma se ele pode encarecer a mão de obra? Meu Deus, são os resquícios da ditadura, realmente ela não acabou.

A questão da disseminação da informação na internet através dos blogs também foi citada. Uai, podemos comparar os blogs à editoria de artigos e editoriais, no qual qualquer pessoa pode colaborar? Na verdade, qualquer profissional sempre pôde ser um colaborador remunerado de um jornal, só não podia exercer em período integral da profissão de jornalista.

“A comunicação de ideias, do pensamento, hão de ser livres, permanentemente livres, essencialmente livres, sempre livres”, apontou lindamente Celso de Mello. Liberdade de informação, de pensamento é o c... dá pra ficar puta da vida. E olha a outra ideia: “Não se pode fechar as portas dessa atividade comunicacional, que em parte é literatura, arte, muito mais do que ciência, muito mais do que técnica. Não se pode fechar a atividade jornalística para expoentes”, defendeu Carlos Ayres Britto. Meu Deus, acho que estudei jornalismo em Marte, ou então estou doida. Pra que serviu tanta aula de técnica, e ciências políticas e história da comunicação e etc. Se isso não serviria para nada o MEC não deveria ter permitido tais aulas. Tínhamos que ir todos a faculdade delirar e escrevemos em cadernos broxurões.

E olha o outro: “o curso de jornalismo, portanto, não garante eliminação das distorções e dos danos recorrentes do mau exercício da profissão, que são atribuídos a deficiências de caráter, de retidão e ética”, afirmou Cezar Peluso. Qualquer profissão há distorções e isso é muito claro, por exemplo, os ministros do STF acabaram de cometer uma. Ética, quem pode apontar ética no Brasil ou questionar a ética jornalística, se escrevemos de acordo com a lógica do dono do jornal, ou do governador, ou de quem mais sei lá quem. Caráter realmente não se forma na escola. E muito menos, aprende-se mais a ter caráter na escola de Direito, não é ministros?

Sinceramente estou perplexa com tanta poética. Em qualquer área, maus profissionais sempre hão de existir. Acredito que o curso superior para qualquer profissão agrega diversas vantagens e conhecimento. Quem sai ganhando com um jornalista de formação, ou qualquer profissional qualificado e bem treinado é a sociedade. Casos isolados existem. Há também milhares de profissionais que só tem o diploma e mais nada. Mas não podemos tomar a exceção como regra.

Precisamos nesse momento de sairmos da inércia e lutar contra tamanha ditadura. É preciso que se tome consciência dessa tamanha regressão. Que deixemos de ser o “Ser em Si” e passemos para o “Ser Para Si”, como aprendi com Sartre (em uma das minhas aulas de filosofia, que talvez seria melhor se eu não as tivesse tido, pois agora vão ter que engolir tudo), um ser com uma consciência do todo, criando um sentido, sem essência definida, mas em busca de algo maior. Que o que eu fui, seja refletido no que sou, e que isso possa mudar e mudar rápido. Chega de estagnação, de aceitar tal definição. É preciso que isso mude. Precisamos ser respeitados.

Esta é a segunda decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal na área de comunicação. Em abril, os ministros revogaram a Lei de Imprensa, editada durante a ditadura militar. Acho que o problema mesmo, somos nós. Estamos incomodando, a pedra no sapato.

A quarta-feira, 17 de junho de 2009, foi o maior retrocesso que já aconteceu para o jornalismo. Será com certeza uma das muitas e tristes datas histórica. É triste saber que ao invés de ganhar, perdi quatro anos da minha vida. Francamente...

Sheila Moreno, ou Cristina ou Maria, tanto faz mesmo agora.

Jornalista com diploma

 
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