Na semana passada, a Justiça Federal do Estado do Rio de Janeiro homologou o acordo que transfere à AGC Energia, subsidiária da construtora, 33% das ações da Cemig, em troca da dívida de R$ 2,1 bilhões da norte-americana AES, antiga sócia da estatal, junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Há três meses, a Andrade Gutierrez havia repassado, por R$ 785 milhões, sua participação de 13,03% na Light para a Cemig, majoritária no consórcio Rio Minas Energia (RME), principal acionista da empresa fluminense.
Com a operação, segundo o sindicato, a Cemig capitalizou a construtora. Além disso, continua o Sindieletro-MG, a Andrade Gutierrez passou a ser dona da Light, por meio da companhia de energia mineira.
Publicado no jornal O Tempo em: 23/06/2010
Foi um bom negócio...
A Andrade comprou um terço da Cemig e ficou dono das duas, porque quem é dono da Cemig é dono da Ligth
Em 4/11/09, publiquei, aqui neste espaço de O TEMPO, o artigo "Ações pra cá, ações pra lá...". Disse assim: "As notícias da mídia dão conta de que a Cemig confirma as negociações com a Rio Minas Energia e Participações (RME), representante do Grupo Andrade Gutierrez no consórcio que mantém o controle da Light, deixando o caminho livre para a Andrade Gutierrez adquirir um terço do seu próprio capital votante, representado por ações custodiadas no BNDES como garantia do empréstimo não pago pela Southern Energy e objeto de execução judicial no Fórum do Rio de Janeiro." Indaguei: "E tudo isso pode ser feito sem autorização da Assembleia Legislativa?" E adverti: "Acorda, oposição..."
Pois bem: passados quase oito meses de muitas tratativas entre Cemig - Andrade Gutierrez - BNDES - SEB (Southern Electric do Brasil Participações Ltda.), a Justiça Federal do Rio de Janeiro, segundo nota do BNDES, "encerra um litígio judicial iniciado há aproximadamente seis anos e permite ao BNDES realizar uma importante recuperação de crédito". Simples assim, não? Às vezes, eu me acho totalmente doido, pois eu faria esse negócio de olho fechado com o BNDES, sem tratativas, se ele financiasse para mim nos termos em que financiou tudo isso... Coisa de louco!
Dizem que negócio bom é aquele em que todas as partes envolvidas ficam satisfeitas. Sei não, mas alguém aqui levou ferro... Deve ter sido o povo de Minas Gerais, um dos donos da Cemig, agora junto com a Andrade Gutierrez.
A Cemig se diz a melhor empresa de energia elétrica do Brasil, no que eu concordo. O que está me incomodando é a dúvida atroz que atordoa minha mente, por não entender o porquê de, sendo a Cemig a melhor empresa de energia elétrica do Brasil, a sua direção deixou passar a transação para a Andrade Gutierrez e comprou, da mesma Andrade, a pior empresa de energia elétrica do Brasil, que é a Ligth.
A mídia já publicou que o maior problema daquela empresa são os "gatos", as ligações clandestinas, nos morros cariocas, que representam mais de 30% de redução de sua receita. E quem é que vai subir lá para intimar ou desligar gatos que miam todo o tempo? E, dessa vez, quem fez o papel de marido traído foi a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Contas, que, nos dias atuais, são sempre os últimos a saber o que se passa com as contas públicas, não que não queiram ou que não seja preciso, mas, parece-me, o problema de conexão entre os poderes está sendo feito por meio do Choque de Gestão.
Em suma: a Andrade Gutierrez vendeu sua parte na empresa Ligth para a Cemig e comprou um terço da própria Cemig. Explicando melhor: a Cemig trocou com a Andrade Gutierrez um terço do seu capital pela Ligth, que eu não queria nem de graça. A Andrade, então, comprou um terço da Cemig e ficou dono das duas, porque quem é dono da Cemig é também dono da Ligth... É isso.
Sylo Costa
Publicado em: 23/06/2010